Fui convidada para dar a palestra magna de encerramento do 3º Seminário de Responsabilidade Social Empresarial da Associação Comercial e Industrial de Joinville. Fico feliz cada vez que constato a expansão da visão sistêmica de um número crescente de empresas que buscam não apenas o lucro financeiro, mas também tentam atender os interesses de funcionários, familiares, acionistas, fornecedores, prestadores de serviços, parceiros, comunidade e meio ambiente. É a marca da empresa cidadã, que integra o lucro com as preocupações sociais, ambientais e éticas. São essas as empresas que produzem um impacto positivo na sociedade.
É preciso ainda expandir essa percepção de que os problemas sociais tornaram-se muito complexos para serem resolvidos apenas pelo Estado: é essencial a parceria entre pessoas, empresas, organizações governamentais e não-governamentais e as próprias comunidades que, quando devidamente ouvidas e valorizadas, tornam-se também parte da solução e não apenas do problema.
No Seminário, falei sobre a importância de investir no “capital humano de crianças e jovens” para que se possa trabalhar mais ativamente no sentido de expandir o cenário esperançoso do mundo em que vivemos e atenuar as conseqüências dos fatores que compõem o cenário desolador.
Entendendo a construção da paz como a capacidade de cuidar bem de si mesmo, dos outros e do ambiente em que vivemos, o investimento no capital humano pode começar desde os primeiros anos de vida quando reconhecemos a grandeza dos pequenos momentos do cotidiano da interação com crianças e jovens para semear a ética do cuidado, quando praticamos os valores fundamentais do convívio na família e na escola, procurando estimular a empatia, a cooperação e o respeito. Desse modo, construímos os pilares da cidadania participativa, valorizando a contribuição de crianças e jovens na definição dos problemas e na busca de soluções.
No Seminário, foram apresentados “cases” de grandes e pequenas empresas que criam seus próprios projetos sociais ou dão apoio aos de organizações não-governamentais bem estruturados. Uma das apresentações foi sobre a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. A supervisora geral Jô Braska, acompanhada por um casal de alunos e seus pais, contou a história do projeto que se instalou em Joinville em 2000 e é a primeira escola do Bolshoi fora do Brasil, com professores russos e brasileiros. Crianças entre nove e onze anos são rigorosamente selecionadas na rede pública de ensino para receber uma formação de oito anos com a metodologia do famoso balé russo.
São cerca de 300 alunos, mais de 90% bolsistas, portanto um belo projeto mantido pela responsabilidade social de empresas e contribuintes individuais. É grande também o número de meninos, devido a um importante trabalho contra o preconceito sobre a presença de homens na dança: o tema é abordado nas escolas e nas famílias, os alunos são estimulados a convidar seus amigos para passar um dia na Escola, vendo as dificuldades, os desafios e a magia dessa aprendizagem. É um dos melhores caminhos para superar o preconceito.
No dia seguinte, tivemos a oportunidade de ver os alunos na Escola “ao vivo e a cores”. Impressiona a disciplina, a busca da excelência, a educação com que recebem os visitantes.
Os bons cuidados estão presentes em muitos detalhes, por exemplo, dos armários individuais que estimulam o desenvolvimento da organização e da responsabilidade, transmitindo respeito pela individualidade, pela privacidade, pelo espaço personalizado que muitos desses alunos não podem ter em suas casas. O ambiente mantido rigorosamente limpo e arrumado, os horários respeitados, a exigência de bom desempenho escolar como condição de permanência no projeto. Embora uma formação tão conceituada abra oportunidades para que os alunos ingressem nas melhores companhias de dança, nem todos seguirão esse caminho, mas a aprendizagem da disciplina, da persistência, do esforço sem dúvida capacita esses jovens para enfrentar com mais sucesso os desafios da vida.
Fiquei encantada com a Escola Bolshoi de Vida, de cultura da paz, onde crianças e jovens aprendem a cuidar bem de si mesmos, dos outros e do ambiente em que vivem, desenvolvendo disciplina amorosa, força, vigor, gentileza, abrindo bons caminhos na dança da vida. É o enunciado da missão: formar artistas-cidadãos, promovendo e difundindo a arte-educação. A visita a esse projeto nos faz acreditar que, realmente, “um mundo com arte é um mundo melhor”.