“Só tem quatro anos e simplesmente falou na minha cara que eu podia ficar
com os carrinhos pra mim!”, disse Cecília, atônita, quando o filho desmontou
sua estratégia de privá-lo dos brinquedos preferidos porque tinha dado um
tapa no irmãozinho. “Só bati de brincadeira, ele chora à toa!”, argumentou
Flávio, desconcertando ainda mais a mãe.
“Será que umas boas palmadas não seriam mais eficientes?”, pergunta Cecília
para, em seguida, lembrar-se de sua infância, quando desafiava a mãe dizendo “Pode bater mais, não doeu!”
As crianças conseguem habilmente desmontar estratégias de poder dos pais que
querem castigá-las, mas podem desenvolver consideração pelos outros quando
consistentemente propomos que descubram como lidar melhor com os outros: “Então está combinado: eu fico com os carrinhos até você pensar uma boa
idéia para se divertir com seu irmão sem machucá-lo!”.
Propor aos filhos que pensem como poderiam ter agido sem recorrer ao
comportamento inaceitável estimula a busca de alternativas de ação, favorece
o desenvolvimento da empatia, do respeito e da consideração pelos outros.
Fortalece também a flexibilidade do pensamento e a criatividade: “Isso não
pode, mas vamos descobrir outras coisas que você pode fazer”. É mais fácil
enfrentar a frustração de um “não” quando se convida a descobrir novas
possibilidades.
“Você vai pegar outro brinquedo depois que guardar esses que estão
espalhados”: limites e conseqüências não têm por finalidade mostrar o poder
dos pais, mas estimular a auto-regulação, um aspecto essencial do
desenvolvimento da responsabilidade.
É sempre bom lembrar que não há receitas rápidas nem infalíveis para criar
filhos. Mas há recursos mais eficientes do que outros, nesse longo processo
de estruturar a “inteligência de relacionamentos” nas inúmeras oportunidades oferecidas pelo convívio diário em família.