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Entrevistas

OS CONSTRUTORES DA PAZ
CAMINHOS DA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA

Seus livros sempre abordaram temas polêmicos, focando os relacionamentos, conflitos, reflexões e questionamentos do ser humano em suas diversas etapas da vida.

Em seu último livro "Os Construtores da Paz Caminhos da prevenção da violência", encontramos um trabalho direcionado ao público jovem e adotado como leitura obrigatória nas escolas.

O que te levou a escrever um livro didático que enfoca os perigos da violência e defende a paz para o público certo, o adolescente?

Em meu trabalho como conferencista e como consultora na área de saúde e educação em todo o Brasil, passei a ouvir, em especial nesta última década, muitas queixas sobre o problema da violência, na sociedade, nas ruas, nos lares-, então, tomei conhecimento da Programa Mundial da Cultura da Paz, proposto pela UNESCO, em 94. Por entender que minha missão como psicóloga e escritora é contribuir para a reflexão e para a mudança, resolvi escrever "Os Construtores da Paz"- embora seja um livro paradidático, tendo como público-alvo os estudantes do ensino médio, tem sido bem acolhido por profissionais que lidam com famílias e que trabalham em projetos sociais, pela ênfase nos caminhos de prevenção da violência e na importância do trabalho em comunidades.

A escola que faz um trabalho de conscientização com seus jovens, do que vem a ser a violência, suas diversas formas e conseqüências, está colaborando para uma sociedade futuramente mais ajustada?

Sem dúvida, está fazendo sua parte. Mas considero importante não só o diagnóstico da violência mas, sobretudo, os caminhos de construção da paz, na visão holística (paz interior, com os outros, com o meio ambiente). Ampliar, por exemplo, os recursos de comunicação, para resolver conflitos e impasses de modo não- violento ( os "acordos de convívio") é o núcleo básico dos programas de educação para a paz- o desenvolvimento dos valores fundamentais solidariedade, respeito, consideração) na prática do dia a dia é outro vetor básico para ações de busca de maior justiça social, entre outras coisas.

O trabalho de educação em Direitos Humanos também contribuí para a diminuição da violência?

Também. A formação de uma cultura de paz, depois de tantos séculos de cultura de guerra depende da decisão de cada um de nós de agirmos como construtor da paz no cotidiano, baseado nos princípios da democracia, da justiça social, da solidariedade. A educação em Direitos Humanos precisa estar acoplada ao incentivo de participação em projetos sociais. Cresce, no Brasil, o movimento do trabalho voluntário-, o protagonismo juvenil é uma tendência que também começa a crescer e dá, na prática, a dimensão de que a transformação da sociedade depende de todos nós.

Como ficam estes jovens mais conscientizados ao se depararem com leis governamentais obsoletas e ineficazes, com a falta de estrutura social, com a impunidade e corrupção vigente em nosso país, com uma mídia inescrupulosa?

Embora eu reconheça que ainda temos problemas gigantescos, que deixam muitos jovens desiludidos e descrentes, tenho uma visão otimista porque vejo, ao participar de algumas ONGs que desenvolvem projetos sociais e conhecer uma infinidade de outros trabalhos, que o Brasil está mudando "pela base", num verdadeiro "trabalho de formiga" de parcerias entre ONGs e algumas prefeituras, em mutirões comunitários, etc, Há inúmeros projetos bem sucedidos de melhoria de qualidade de saúde e educação em pequenos municípios pelo Brasil. A mídia aborda parte desses trabalhos, mas precisa mostrá-los com mais ênfase, para que sejam multiplicados em larga escala e, daí, partir para uma pressão eficaz nas esferas mais altas do poder, exigindo que cumpram seus deveres, que administrem com transparência e eficiência.

Nos consultórios observamos que os dois segmentos de família- a família autoritária, com suas regras e sanções rígidas e repressivas, e a família permissiva, onde a liberdade é sinônimo de falta de limites são as que geram crianças e adolescentes com mais problemas de aprendizagem, são elas também que geram crianças e adolescentes mais violentos?

De formas diferentes. A família autoritária, com atitudes de abuso de poder e uso de violência (física ou verbal) estimula, em algumas crianças, a internalização deste modelo- passam, portanto, a encarar como normal o caminho da violência para resolver conflitos e o padrão de dominação/submissão nas relações familiares como aceitável. Vários estudos mostram que boa parte dos adultos violentos foram crianças violentadas. Por outro lado, considero devastadora a influência da família permissiva na conduta violenta- quando os limites devidos não são colocados, é grande o risco de falhas no desenvolvimento do controle da impulsividade-. a criança e o jovem continuam vivendo centrados em seus próprios desejos- a tolerância à frustração, a noção de empatia, solidariedade e respeito pelos outros ficam subdesenvolvidas. Tudo isto é agravado pela "cultura da impunidade" que, dentro do próprio lar, espelha a cultura da impunidade que existe na sociedade.

Quando detectada a violência doméstica, a escola tem por obrigação denunciar, mas quando o psicólogo ou psicopedagogo detecta no consultório este grande problema com a ética do sigilo. O que você pensa a respeito disso ?

O ECA é muito claro a este respeito- mesmo em consultório, temos o dever de notificar para que sejam buscados os recursos devidos para a proteção da criança e do jovem.

Para Gandhi "a pobreza é a pior forma de violência" e para Maria Tereza Maldonado, qual a pior forma de violência na nossa realidade?

A miséria, a insuficiência do Estado para prover um nível digno de educação, saúde e segurança para todos os segmentos da população e a cultura da impunidade.

O que significa mudar a cultura da violência em cultura da paz? Isso é possível de que forma?

A esperança da UNESCO, ao formular este programa, é que milhões de pessoas em todo o mundo possam se conscientizar de que todos nós podemos agir como construtores da paz nos pequenos momentos do dia a dia, nos relacionamentos familiares, sociais e de trabalho e no cuidado adequado com o meio ambiente. As causas da violência são muitas e os caminhos de prevenção e de combate aos focos desta violência, tão necessários para a mudança de mentalidade proposta pela cultura da paz, também precisam ser construidos de muitas maneiras. A este propósito, gostaria de lembrar que a ONU proclamou o ano 2000 como o Ano Internacional de Cultura da Paz e a década que se inicia em 2001 como A Década Internacional da Cultura da Paz e da Não-Violência para as Crianças do Mundo.