Entrevistas
O Trabalho Voluntário para os Adolescentes
Estamos no Ano Internacional do Voluntário e para que 2001 seja um grande marco na consolidação da cidadania, principalmente entre os adolescentes, é que Maria Tereza Maldonado, psicóloga especializada em psicoterapia de famílias e com mais de 20 livros publicados sobre relacionamento familiar e desenvolvimento pessoal, está lançando o livro "Redes Solidárias" pela Editora Saraiva. A autora utiliza uma obra de ficção destinada ao adolescente e "por meio dos personagens tenta mostrar a evolução de uma comunidade carente em que as pessoas modificam a realidade em que vivem, unindo sonhos e idéias de jovens e adultos, na construção de projetos sociais que melhorem a qualidade de vida de todos". O livro traz uma lista dos atuais centros de voluntariado no Brasil. Confira a entrevista que a Saraiva.com.br realizou com a escritora.
Saraiva.com.br - O que fazer para dar o primeiro passo na direção do trabalho voluntário ?
Maria Tereza Maldonado - O primeiro passo é o desejo de ser solidário. Para concretizá-lo, há vários caminhos. Um deles é procurar um dos centros de voluntários para se cadastrar e receber treinamento específico. Existem quase 40 desses centros, organizados pela Comunidade Solidária, em várias cidades brasileiras. Associações religiosas, ONGs que trabalham com projetos sociais dos mais variados tipos, centros comunitários também precisam do trabalho de voluntários. Outro caminho é juntar-se com outras pessoas interessadas e montar um projeto de ação.
Saraiva.com.br - Qual a importância de instituir o ano de 2001 como o "Ano Internacional do Voluntário" ?
Maria Tereza Maldonado - É dar maior visibilidade na mídia para o tema, mostrando que este movimento está crescendo em muitos países, inclusive no Brasil e acentuando a importância da participação de todos para melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas. O conhecimento dos inúmeros projetos bem sucedidos é um estímulo para que essas iniciativas sejam multiplicadas; o depoimento de pessoas que, ao atuarem como voluntárias, se sentem mais felizes e realizadas é também um incentivo para que outros façam o mesmo; as informações sobre os caminhos a serem seguidos para atuar como voluntário são preciosas para as milhares de pessoas que desejam ajudar mas não sabem como e nem por onde começar.
Saraiva.com.br - Hoje é comum dizer que as empresas valorizam mais aqueles funcionários que praticam o trabalho voluntário, você concorda ?
Maria Tereza Maldonado - Esta é uma tendência crescente porque o voluntário é visto como uma pessoa que desenvolveu mais plenamente sua cidadania, valorizando sua contribuição para a coletividade. E mais: há também uma tendência crescente, entre os próprios consumidores, a preferir comprar os produtos das empresas que demonstram preocupação social, a "empresa cidadã".
Saraiva.com.br - Qual é a história do livro "Redes Solidárias" ?
Maria Tereza Maldonado - Os personagens principais são dois jov ens, um de classe média e o outro de classe popular que se conhecem no trabalho voluntário de uma escola de informática numa comunidade carente e descobrem muitos pontos em comum: a alegria de contribuir para melhorar a vida de muita gente, a crença no poder transformador das idéias criativas e o sonho de construir uma sociedade mais justa. Outra personagem de destaque é a diretora de uma escola pública que, juntamente com pais, professores e alunos, desenvolveu o projeto de uma horta comunitária e de um ateliê de artes plásticas, onde um jovem pichador se revelou como artista plástico e passou a pintar murais na comunidade. Por meio destes e de outros personagens, "Redes Solidárias" mostra a evolução de uma comunidade carente em que as pessoas descobrem o poder de modificar a realidade em que vivem unindo sonhos e idéias de jovens e adultos na construção de projetos sociais que melhoram a qualidade de vida de todos.
Saraiva.com.br - Por que fazer uma obra de ficção sobre o trabalho voluntário ? Isso seria uma forma fisgar o adolescente que é alvo que se quer atingir ?
Maria Tereza Maldonado - Considero que seja uma "embalagem" mais atraente para apresentar o tema do trabalho voluntário, embora "Redes Solidárias" seja uma obra de ficção totalmente baseada na realidade. Além da minha própria experiência como voluntária em vários projetos sociais ao longo das últimas décadas, conversei com muitas pessoas e vi muitos projetos acontecendo na prática. Estas experiências reais foram trabalhadas nos cenários e nos personagens da ficção.
Saraiva.com.br - Por que o trabalho voluntário é mais forte e presente entre a população de renda mais baixa ?
Maria Tereza Maldonado - A solidariedade no cotidiano da população carente está muito mais desenvolvida do que nas camadas mais favorecidas. No entanto, o aumento do interesse em participar de trabalhos voluntários está acontecendo em todas as camadas.
Saraiva.com.br - Na sua opinião, mais se fala em trabalho voluntário do que realmente se pratica ?
Maria Tereza Maldonado - Não creio. A prática está aumentando consideravelmente. Mas é preciso aumentar infinitamente mais, pois, vivemos num país de extrema desigualdade social, em que todos precisam contribuir para construir uma sociedade mais justa.
Saraiva.com.br - Como os pais poderiam ensinar seus filhos, desde pequenos, a serem mais solidários com o próximo ?
Maria Tereza Maldonado - A construção da cidadania e dos valores fundamentais de convivio (cooperação, generosidade, respeito, consideração pelos outros etc) precisa ser feita nos pequenos momentos do dia-a-dia, começando dentro da própria casa e se estendendo para a comunidade maior. O exemplo dos pais como pessoas solidárias é fundamental, mas não suficiente: é preciso haver o estímulo concreto da partilha e da noção da importância do outro, por meio de conversas e ações específicas de ajuda.