UM É POUCO ?
por Claudia Altschüller
São faltam desculpas para optar por ter apenas um filho: o preço das escolas, os baixos salários, o aumento da marginalidade, a instabilidade do relacionamento, a longa e estressante jornada de trabalho... Estatisticamente é cada vez maior o número de mulheres que desiste de ter o segundo filho. Basta ver a taxa de fecundidade da mulher brasileira que, segundo o IBGE, baixou de 2,37, em 1995, para 2,2 no ano passado. Em alguns estados da região sudeste e sul, o índice é ainda mais baixo, quase se equiparando ao de países europeus. Estatísticas à parte, o que vem chamando a atenção de pais e educadores são as conseqüências que essa falta de relação fraternal pode trazer para a criança - leia-se um grande sentimento de egocentrismo - e até para a sociedade.
Para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, a opção pelo filho único deve-se, principalmente, a fatores como a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, a dificuldade de contar com uma infra-estrutura adequada para que as crianças fiquem bem cuidadas enquanto os pais trabalham, e o compromisso não só emocional mas também financeiro de criá-las. Foi o lado financeiro que pesou na opção da professora universitária Mariana Alencar na hora de planejar uma família pequena. "O custo de vida está altíssimo atualmente. Não tenho condições de bancar duas escolas, planos de saúde... Quero o melhor para meu filho. Por isso, eu e o Sérgio optamos por ter apenas um", conta Mariana, que é filha e neta única.
A copeira Patrícia Rabello, mãe de Thays, de 10 anos, também não pode arcar com as despesas de um segundo filho. "Meu marido até quer mais uma criança mas eu não tenho coragem. Trabalho em período integral para ajudar a pagar todas as contas", desabafa. "Estou também com 29 anos, minha filha já está mais independente, não teria paciência para começar tudo de novo", confessa.
Muitas vezes, a chegada do irmãozinho vai sendo adiada por tanto tempo que simplesmente acaba não acontecendo. Com a tradutora Ana Paula Oliveira, mãe de Thiago, 22 anos, foi assim. Quando o menino tinha apenas seis meses, a tradutora ficou grávida de novo. Dividida entre o neném, o trabalho e o marido, Ana optou pelo aborto, adiando a segunda gravidez para um momento mais oportuno, o que não aconteceu. "Se arrependimento matasse... Acho lindo quando vejo uma família grande. Era louca para ter mais um filho mas fiquei esperando melhorar minha carreira e, quando vi, o Thiago já estava com 12 anos. Perdi totalmente o pique", lembra, com remorso. "Hoje, me sinto muito sozinha. Eu me divorciei e meu filho é minha única família. O pior é que o Thiago se tornou um rapaz muito sozinho e egocêntrico, ele literalmente se fecha no quarto nos raros momentos em que está em casa", lamenta.
Segundo a psicóloga clínica Maria Tereza Maldonado, o filho único não é necessariamente uma pessoa egocêntrica ou problemática. Os pais dessa criança também não são necessariamente superprotetores ou superexigentes. Cada organização familiar tem características e desafios próprios, que precisam ser enfrentados para se construir um lar harmônico, em que a criança se desenvolva bem. No caso do filho único, de acordo com a psicóloga, falta a relação fraterna em que, por meio de brigas, disputas, brincadeiras e outros momentos de convívio, vão se formando as noções básicas de relacionamento entre pares, meios de resolver impasses e conflitos, além de hábitos de partilha e de ajuda recíproca. No entanto, algumas pessoas, mesmo tendo irmãos, crescem egocêntricas, não respeitando as necessidades dos outros e impondo seus desejos. Na opinião da terapeuta, a questão é como estimular, no filho único, o desenvolvimento dessa capacidade de levar os outros em consideração, de ter empatia, compreensão e generosidade.
Maria Tereza sugere estimular desde cedo o convívio com outras crianças, criando condições para o desenvolvimento de laços fortes de amizade, para que o filho único possa ter a oportunidade de, ao longo da vida, criar "amizades fraternas", como uma rede de "amigos-irmãos". Portanto, criar amplas oportunidades de contato do filho único com outras crianças da própria família, da escola ou da vizinhança é um caminho essencial para a construção da segurança em sua capacidade de se comunicar, de se relacionar, de compartilhar bons momentos de brincadeira e de criar recursos para resolver impasses e conflitos que inevitavelmente surgirão no dia-a-dia.
A advogada Ana Lúcia Ribeiro, mãe de Renata de oito anos, sempre convida outras meninas para sua casa. "É um entra e sai de crianças aqui. Eu me lembro que um dia cheguei a preparar lanche para cinco meninas", conta. "A Renatinha vive pedindo uma irmã ou irmão, disse que até dividiria seu quarto. Mas é impossível coma vida corrida que eu levo. Por isso, tenho que levar uma amiguinha até na hora em que vamos viajar. O ato de brincar com outra criança da mesma idade é insubstituível, pois eu, como adulta, não conseguiria fazer da mesma maneira", admite ela, que procura estimular a filha a freqüentar também a casa das colegas.
Membro da Academia Americana de Terapia de Família, a psicóloga aconselha também os pais a evitarem que tudo e todos girem em torno da criança, como se ela fosse a "rainha" da casa, tendo os demais familiares como súditos à sua disposição. "É preciso, desde cedo, que ela aprenda, também com os adultos, que a comunicação e o relacionamento são "ruas de mão dupla" - as necessidades próprias são importantes, mas as dos outros também. Quando se tem a visão de família como uma pequena comunidade social, em que cada um precisa dar sua contribuição na medida de suas condições, é possível criar, também no filho único, a mentalidade de cooperação, participação, partilha, o melhor antídoto contra o egocentrismo", acredita.
A psicóloga atenta ainda para o fato de muitos pais exigirem demais de seus filhos, não necessariamente quando têm apenas um. É sempre importante refletir a respeito, para examinar a própria expectativa de que o filho siga nossos desejos como pais, sem a liberdade de construir seus caminhos próprios, com sua maneira de ser peculiar. "Nas famílias com um único filho, a expectativa, os sonhos, os desejos, os anseios e os temores ficam concentrados nessa única criança e, portanto, essa revisão precisa ser ainda mais cuidadosa", alerta Maria Tereza.
A universitária Danielle Fraga, 24 anos, como filha e neta única, não sente uma expectativa grande por parte de sua mãe em relação à carreira. A preocupação maior é em relação à velhice da mãe. "Para ser sincera, eu acho que ela tem medo de eu me casar e deixá-la sozinha", confidencia. "E isso é uma coisa que também me aflige muito porque ela é divorciada. Eu me sinto bastante responsável pelo bem-estar dela e às vezes me sinto culpada em sair e deixá-la sozinha em casa", conta ela, que para resolver o impasse acaba quase sempre levando a mãe e a avó à tiracolo quando sai para jantar com o namorado.
O importante é educar filhos, únicos ou não, como se estivesse cuidando de uma plantinha. Carinho, atenção, proteção e limites na dose certa farão essa criança desabrochar com a certeza de que veio ao mundo para ser um cidadão consciente, solidário e atuante.