Como perceber essa linha divisória entre o cuidado que protege e o controle (superproteção) que limita o desenvolvimento da autonomia?

Em uma transmissão ao vivo que fiz sobre esse tema, com a psicóloga Josie Conti, abordamos um episódio de tentativa de recolher exemplares de um livro que mostrava uma cena de “beijo gay” entre dois adolescentes. Isso reacendeu uma antiquíssima polêmica sobre livros censurados desde épocas remotas, em que governantes autoritários pretendiam “proteger” a população de ter acesso a ideias que consideravam inaceitáveis.

Isso inspirou a escritora Ana Maria Machado a escrever sobre a importância dos “livros livres”, que nos expõem à diversidade de ideias, que ampliam nossa visão sobre o mundo e a própria vida. Sobretudo nessa era em que os algoritmos “decidem” o que vai ser mostrado em nossas redes sociais, resultando na intensificação dos radicalismos e no estreitamento do nosso campo de visão. Corremos o risco de ficarmos aprisionados em “bolhas”, junto com os que pensam igual a nós, empobrecendo nossa percepção da diversidade de visões do mundo.

É o que acontece com o isolamento no cotidiano dos condomínios de classe média alta que “protege” o olhar de crianças e adolescentes sobre a imensa desigualdade entre as classes sociais, impedidos de andar pelas ruas ou de usar transporte público.

A violência urbana assusta muitas famílias, intensificando a proteção. Porém, como desenvolver a própria percepção para dar conta dos perigos e se proteger?

“Minha mãe nunca permitiu que eu dormisse na casa de amigos. Mas não quero fazer isso com minha filha”; “Não quero dar um celular para o meu menino de nove anos, mas ele se queixa de que os colegas não o convidam para coisa alguma por causa disso”.

Entre os “pais helicópteros”, que monitoram cada passo dos filhos, e os pais que não fazem a menor ideia de com quem estão ou para onde vão os filhos adolescentes, há uma enorme diferença.

Crianças e adolescentes estão expostos à enxurrada de informações e ao noticiário. É preciso contribuir para que desenvolvam espírito crítico, pensamento reflexivo para aproveitar o que é relevante e descartar o que não é. E, sobretudo, ampliar os temas das conversas em família, nutrir a curiosidade para saber como os filhos formam suas próprias opiniões e visões sobre o que acontece.

“Como identificar se estou tendo excesso de controle a ponto de prejudicar o desenvolvimento dos meus filhos?” – foi a pergunta de uma mãe.

Nesse mundo incerto e imprevisível, a angústia dos pais é significativa. Precisamos nos rever, aprofundar nosso autoconhecimento e expandir a escuta do que os filhos pensam e sentem. “Você quer chegar mais tarde das festas, mas eu me sinto muito insegura para liberar esse horário. Como você pode me convencer de que estará alerta para os possíveis perigos e se proteger?”. Essa é uma das posturas que facilita acompanhar o crescimento dos filhos e crescer junto com eles.

Em uma situação oposta: “Quero trocar de turma porque tem um menino que me chateia muito” – lamenta a menina de sete anos, mobilizando no pai o desejo de fazer esse pedido na escola para “proteger” a filha. Mas como ela vai desenvolver recursos para lidar com situações semelhantes no decorrer da vida escolar e, futuramente, no ambiente de trabalho? São desafios da construção dos relacionamentos!