201607-Edite-Lençóis

A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.