Pa-ran-do!! Quase a metade da população mundial dentro de casa, no final de março de 2020! Todos perplexos com o poder desse gigantesco exército invisível aos nossos olhos que cresce exponencialmente. Difícil entender o que está acontecendo e impossível prever o que acontecerá. Precisamos de humildade para ver que quase nada está sob nosso controle nessa vida.

Estou acompanhando a reflexão de muitas pessoas sobre o novo coronavírus, por meio de leituras, noticiário, conversas online com amigos e transmissões ao vivo nas redes sociais. Uma frase interessante que eu li: Quem disser que sabe o que vai acontecer está desinformado ou delirando.

Em qualquer crise, seja individual e/ou coletiva, a mudança é inevitável, e ela pode ser para melhor ou para pior, dependendo da qualidade das ações nas diversas escalas e da rede de relacionamentos presenciais e virtuais.

A situação atual é assustadora, o aumento da ansiedade acontece. Por isso, as técnicas de meditação e de relaxamento são tão benéficas para atenuar o impacto emocional desse cenário imprevisível.

Para aproveitar a oportunidade das mudanças inevitáveis, é preciso liberar a criatividade e ter flexibilidade mental e emocional para se ajustar às circunstâncias, além de ampliar a tolerância à frustração pelas restrições impostas.

Podemos escolher o modo de olhar para essa situação. Ficar em casa pode ser encarado como “castigo”, a gerar revolta pela privação da liberdade de ir e vir. Por outro lado, renúncia voluntária ou obediência à imposição do ficar em casa pode ser considerada como necessária para o bem comum, e desse modo, ser vivida com mais serenidade.  

Além disso, é oportunidade de, literalmente, parar e pensar, mergulhar dentro de nós mesmos, rever e reorganizar nossa vida. Como era antes? E agora? Poderá ficar ainda pior? Ou está ruim, mas depois ficará melhor? Como me preparar para o amanhã imprevisível? Valorizar o silêncio fértil de nossa própria companhia, desenvolver compaixão e empatia, perceber o que realmente importa.

Desacelerar, sair do corre-corre das agendas cheias, em que a casa funcionava em ritmo de entra-e-sai, oi-e-tchau e, de repente, todos em casa. E agora?

A “equipe familiar” pode ter novas oportunidades de aprender a pensar juntos soluções para os desafios que surgem. Crianças e adolescentes participando da organização de uma nova rotina para estudar, trabalhar, compartilhar a limpeza da casa, o preparo das refeições, os momentos de lazer individuais e coletivos.

Aprimorar a autodisciplina e a cooperação é um ganho que poderá dar bons resultados no presente e no futuro. Abrir a mente para novos interesses, criar histórias coletivamente para expressar emoções, cultivar alegria e leveza mesmo nesse período difícil. Isso é e será essencial para construir o equilíbrio emocional para enfrentar o que vier.

Podemos aproveitar bem o presente da presença. Olhar nos olhos, seja presencialmente ou por chamadas com vídeo, sentir a conexão com quem está ao nosso lado, com as pessoas queridas fisicamente distantes. Expandir a capacidade de amar e de sentir compaixão.

Fortalecer a conexão com milhares de pessoas que não conhecemos, pelas quais sentimos gratidão por cuidar de nós, como os profissionais de saúde, os trabalhadores de farmácias e supermercados, os entregadores, os policiais e os bombeiros, os que recolhem o lixo e limpam as ruas e tantos outros.

Expandir a cooperação e a generosidade: as “correntes do bem”, que oferecem ajuda de vários tipos aos idosos, psicoterapeutas que voluntariamente dão consultas online para quem está com dificuldade de ficar em casa, pessoas que criam e compartilham ideias para brincar com as crianças enquanto as escolas estão fechadas, grupos de trocas, em que as pessoas dizem o que podem oferecer e do que precisam, artistas que fazem shows online.

Tempo de novos acordos de convivência: se a casa é de todos, e estão todos em casa, como distribuir de outros modos os afazeres domésticos (incluindo crianças e adolescentes)? Como combinar rotinas e ambiente de tranquilidade para que os adultos possam trabalhar de casa? Como proteger os idosos?

Tempo de melhorar a qualidade do convívio: “Como podemos viver melhor enquanto precisarmos ficar em casa?”, É a pergunta para a qual todos (inclusive crianças) podem dar boas respostas. Conversar sobre o que sentimos, entender que raiva e irritabilidade são expressões da frustração pelas restrições impostas.

Tempo de resolver conflitos em relacionamentos difíceis: entre casais, pais e filhos, irmãos. Sair das respectivas posições rígidas, mantidas pelo orgulho que se alimenta de mágoas passadas e se abrir para a escuta sem ataques recíprocos, críticas e acusações repetidas infinitas vezes. Como cada um pode contribuir para construir uma relação de melhor qualidade?

Tempo de criar acordos inusitados: ex-casais com filhos em guarda compartilhada, o que fazer? Os que mantiveram uma relação de amizade decidem voltar a morar na mesma casa para cuidar juntos dos filhos, embora conservem a separação conjugal; outros estendem o período de convivência semanal, para evitar ao máximo os deslocamentos. E os namorados ou os casais que vivem juntos em casas separadas? Passarão esse tempo juntos na mesma casa? Ou não?

Tempo de reorganização da vida: com o impacto econômico inevitável, o orçamento financeiro precisará ser revisto por cada família e pela sociedade como um todo. Talvez seja a oportunidade para acelerar a necessária transição de uma sociedade de consumo para uma sociedade de bem-estar, que prioriza o valor do tempo de contato consigo mesmo e com os outros, em vez do corre-corre para ganhar mais dinheiro e consumir mais.

Em pouco tempo de “todos em casa”, nas grandes cidades, já se observa a redução da poluição, dos engarrafamentos, do lixo nas ruas. Sem poder tocar fisicamente, tocamos o coração uns dos outros com o olhar e com ações de gentileza e carinho. É a oportunidade de expandir o amor e o respeito por todos nós e pelo planeta.